segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Jesus (O Semeador)...

LUCAS 6
46 – Por que vocês me chamam “Senhor, Senhor” e não fazem o que eu digo?

LUCAS 8
5 – Certo homem saiu para semear. E, quando estava espalhando as sementes, algumas caíram na beira do caminho, onde foram pisadas pelas pessoas e comidas pelos passarinhos.

 "Um semeador semeou sua semente, e dois homens construíram suas casas":


“Meu Pai é glorificado pelo fato de vocês darem muito fruto; e assim serão meus discípulos” (João 15:8). Esta frase, escrita anos depois do Evangelho de Lucas, confere outra dimensão à primeira parábola que estamos lendo hoje. Trata-se de mais uma imagem “agrícola” – mas nela Jesus não é um semeador ou uma semente, e sim a videira cujos ramos são os discípulos. De todo modo, em ambos os casos o objeto do texto é a produção de frutos. 

As parábolas cumprem, no mínimo, um duplo propósito. De uma maneira simbólica, ao utilizar imagens familiares para seu público, Jesus transmite uma mensagem moral que pode ser entendida por ouvidos preparados e dispostos a aceitar o chamado para o reino de Deus. Mas essas mesmas palavras e imagens são misteriosas e obscuras para os teimosos, que se recusam a ouvir. Nesse caso, talvez “vendo, [eles] não vejam; e ouvindo, não entendam” (8:10).

A parábola do semeador é rica porque suas imagens podem ser interpretadas em diferentes níveis. Talvez algumas nuances que percebemos hoje não tenham sido identificadas pela plateia de Jesus. Ocorre que nós temos o privilégio de contar com a explicação dada pelo próprio Jesus aos discípulos. 

São quatro os personagens principais: o semeador, a semente, o solo e o fruto. O semeador, evidentemente, é Jesus. Ele anuncia e “semeia” a palavra, a mensagem do Reino. Para nós, porém, que lemos João, Ele é também a semente: a mensagem e o mensageiro são uma única coisa. De todo modo, a semente é semeada de forma generosa, e alcança todos os espaços do campo. Neste ponto, deparamos com um verdadeiro paradoxo: se seguirmos a imagem da parábola, será de esperar que os diferentes solos fossem os receptáculos da semente. 

Mas a parábola faz uma curva inesperada. A semente representa os que são semeados! De repente, descobrimos que a mensagem – a palavra – não é algo que vem a nós, e sim nos transforma na própria mensagem. Não se trata de receber, e sim de desenvolver, de tornar-se grão e lutar contra as circunstâncias que nos impedem de crescer e medrar. Nesse sentido, devemos nos identificar com todas as sementes e todos os solos. 

Dessa forma, chegamos à descoberta: assim como os ramos não conseguem dar frutos se não estiverem unidos a Jesus (a verdadeira videira), ou a menos que o homem que constrói a casa cave bem fundo e alcance os pilares mais sólidos da vida (também eles uma representação de Jesus), seremos incapazes de produzir frutos bons e abundantes, ou de erguer a vida sobre um alicerce forte o bastante para suportar chuvas e torrentes. 

domingo, 30 de dezembro de 2018

Jesus (As Parábolas)...

LUCAS 10
25 Um mestre da Lei se levantou e, querendo encontrar alguma prova contra Jesus, perguntou: – Mestre, o que devo fazer para conseguir a vida eterna?

LUCAS 6
27 – Mas eu digo a vocês que estão me ouvindo: amem os seus inimigos e façam o bem para os que odeiam vocês.
28 Desejem o bem para aqueles que os amaldiçoam e orem em favor daqueles que maltratam vocês.


 "Uma vítima de assaltantes e um bom samaritano": 

Já lemos e ouvimos essa parábola tantas vezes a ponto de correr o risco de cair na armadilha do clichê banal e repetido. Talvez possamos observar o texto sob outra perspectiva, diferente do costumeiro sermão “moralizador”. O personagem envolvido na conversa com Jesus, e também os participantes da parábola, merecem nossa atenção e podem esclarecer alguns aspectos do texto que talvez passem desapercebidos. 

Em primeiro lugar, as circunstâncias. Logo após o retorno dos setenta e dois discípulos, Jesus vivencia um momento de alegria ao constatar a capacidade dos incultos e pequeninos (os próprios discípulos) de compreender os mistérios ocultos do reino. 

Então surge um “perito na Lei”, pronto para testar Jesus com uma pergunta capciosa. Mais uma vez, é preciso lembrar que em todas as discussões jurídicas ou estritamente religiosas travadas por Jesus, seus oponentes costumam ser mestres da Lei ou fariseus. 

Depois que Jesus responde à pergunta e passa no teste, o perito tenta novamente absolver ou “justificar” seu comportamento.

A parábola de Jesus apresenta os próprios personagens. Em primeiro lugar, a vítima, um homem cuja origem ignoramos – embora seja possível supor que fosse judeu. Vítima de ladrões, ele poderia estar morto. Se fosse esse o caso, seria uma fonte de impureza ritual para os que se aproximassem ou encostassem nele. Esse fato é fundamental, pois explica o comportamento do sacerdote e do levita. 

Provavelmente eles estavam indo ao templo em Jerusalém, e, caso estivessem com alguma impureza, não poderiam participar do culto. Do ponto de vista jurídico, os dois agiram corretamente. O “Bom” Samaritano é um oximoro* para o pensamento judaico, pois seria impossível que qualquer samaritano fosse considerado “bom”. 

Conhecemos muito bem o ódio eterno e recíproco nutrido por judeus e samaritanos. De todos os viajantes que seguiam na estrada para Jerusalém, foi justamente o samaritano o exemplo da atitude que Jesus esperava de seus seguidores incultos e pequeninos, dispostos a seguir seu caminho rumo ao reino de Deus. O samaritano dá uma demonstração de amor em relação a alguém que pertence ao grupo dos que o odeiam, e que ele odeia. 

Ele paga pelos remédios e pelas despesas necessárias para tratar o estranho – e o faz sem esperar qualquer recompensa ou reembolso. O samaritano age com um filho do Altíssimo, com misericórdia, à semelhança do Pai que está no céu!

Ouso fazer mais uma pergunta: quem, na verdade, era o verdadeiro “próximo” da parábola: o samaritano misericordioso ou a vítima que recebeu como presente a ajuda e a piedade de um inimigo?

oximoro

sábado, 29 de dezembro de 2018

Jesus (E os Contrastes)...

LUCAS 19
1 Jesus entrou em Jericó e estava atravessando a cidade.
2 Morava ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe dos cobradores de impostos.

LUCAS 16
19 Jesus continuou: – Havia um homem rico que vestia roupas muito caras e todos os dias dava uma grande festa.
20 Havia também um homem pobre, chamado Lázaro, que tinha o corpo coberto de feridas, e que costumavam largar perto da casa do rico.

 "Dois homens ricos à mesa: um cobrador de impostos e um abastado":

Como já fizemos em outras ocasiões, vamos considerar dois homens contrastantes. Um deles é real e tem nome; o outro é apenas o personagem de uma parábola. Não fosse por isso, seria possível achar que estamos comparando duas “vidas paralelas”. 

Ambos simbolizam um dos temas preferidos do Evangelho de Lucas: a riqueza, nossa relação e o uso que fazemos de nossas posses. Os contrastes e coincidências são notáveis. Vamos vê-los, passo a passo. Na condição de chefe dos cobradores de impostos, Zaqueu pertencia a um dos grupos sociais mais desprezíveis de Israel. 

Eles eram vistos como colaboradores dos romanos, fáceis de serem subornados, propensos a extorquir e explorar o povo. Seu dinheiro estava maculado de culpa e impureza jurídica. 

Quanto ao homem rico, a parábola não lhe confere um nome, e tampouco sabemos detalhes sobre a origem de sua riqueza. Podemos partir do pressuposto de que ele herdou ou fez sua fortuna de maneira legítima. A única coisa que sabemos com certeza é que ele vivia no fausto e ignorava a existência do pobre Lázaro. Neste caso, à exceção do nome, sabemos apenas que Lázaro sofria de extrema pobreza e de algum tipo de doença cutânea. Ele não diz uma frase sequer em toda a narrativa.

Num dado momento, tudo muda para os três personagens. Na parábola, a morte é o ponto da virada. Carregado pelos anjos para o seio de Abraão, Lázaro apenas observa o destino do homem rico, cujo castigo não tem qualquer explicação fora o fato de que ele ignorou o sofrimento de Lázaro. No final das contas, a riqueza é incapaz de comprar uma passagem para ser recebido no seio de Abraão.

Para Zaqueu, o único personagem do mundo real, também há um ponto de virada, no qual tudo muda para melhor. Como sempre, a presença e a ação de Jesus rompem todas as barreiras que os fariseus e mestres da Lei gostam de erguer. Até os cobradores de impostos, pecadores por excelência, podem ser transformados por Jesus, que veio conclamar os pecadores ao arrependimento, “buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19:10)

Há quem torça o nariz para esse sinal incomum de misericórdia, mas Jesus deixa claro que ninguém está excluído do reino de Deus, a não ser que seus desígnios sejam confrontados ou ignorados de maneira muito evidente. 

Ao contrário do rico da parábola – incapaz de compreender a própria situação, ele implora por uma gota d’água –, Zaqueu consegue mudar sua vida, compartilhar suas posses com os pobres, reparar suas faltas... e receber Jesus

O cordeiro extraviado convida o Bom Pastor a entrar em sua casa. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Jesus (Aceita o Pecador)...

LUCAS 15
11 Jesus continuou: Um homem tinha dois filhos.
12 O mais novo disse ao seu pai: “Pai, quero a minha parte da herança”. Assim, ele repartiu sua propriedade entre eles.

 "Dois filhos, dois homens rezando no Templo":

Antes de refletirmos sobre os textos, seria útil ter em mente as duas parábolas que precedem a do “Filho Perdido”. As imagens dos cordeiros extraviados e da moeda perdida nos dão uma vaga ideia da alegria sentida por um pai ao ter de volta um filho dado como morto. Também não devemos esquecer que Jesus está falando para um grupo específico de pessoas – os fariseus e os mestres da Lei, orgulhosos e autossuficientes, que o criticavam por “receber e comer” com os pecadores e excluídos, e desprezavam aqueles que consideravam não-observantes.

Um homem tinha dois filhos, e ambos haviam se distanciado dele. Um deles ousara romper os laços da vida familiar, partindo para uma “região distante” e desperdiçando a herança que havia pedido ao pai. Quando a penúria chegou, ele decidiu voltar para casa, desesperado (a fome é mais forte que o orgulho), decidido a ser aceito não como filho, e sim como um “empregado”. 

O outro filho havia ficado em casa, obedecendo às ordens do pai e trabalhando “como um escravo” (essa é a expressão literal usada em grego!). Do ponto de vista físico, ele estava na casa do pai; emocionalmente, estava muito longe. O ápice da história revela a triste realidade da natureza humana, representada pela falta de amor verdadeiro na relação de ambos os irmãos com o pai. O mais moço, recebido como um filho, não diz nem “obrigado”. Já o mais velho sente uma mistura de raiva e ressentimento. Ele vê o irmão como um estrangeiro (“seu filho”, diz, e não “meu irmão”). 

A parábola não revela se ao final esse filho se reconciliou e juntou-se ao banquete. Bem acima da reação suja dos irmãos, o comportamento magnânimo e misericordioso do pai surge como um farol de esperança em meio à escuridão.

No caso dos dois homens que vão rezar no Templo, temos, em suas orações, exemplos extremos de comportamentos em relação à vida. Não raro interpretamos os fariseus de forma equivocada, ao considerá-los apenas como inimigos de Jesus, hipócritas e intolerantes. Na verdade, eles eram extremamente observantes à Lei. 

Tampouco entendemos a opinião negativa que as pessoas nutriam pelos cobradores de impostos, considerados pecadores públicos, colaboradores dos ocupantes romanos e “juridicamente impuros”. Os dois homens esperam ter suas atitudes justificadas, e o resultado de suas orações não é o que o leitor espera. O fariseu confia na própria retidão, e gaba-se dela. Ele não reza para pedir algo a Deus, mas despreza o coletor de impostos – que, por sua vez, confia em Deus e pede: “Tem misericórdia de mim, que sou pecador”.

Não há mais nenhum comentário sobre os textos, apenas uma pergunta simples: com qual dos personagens dessas parábolas nos identificamos? A indagação pode ser um ponto de partida para descobrir a qual distância estamos da verdadeira mensagem: o Deus anunciado por Jesus, seu Pai, é um Deus de misericórdia e perdão.


quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Jesus (Trabalha Todos os Dias)...

LUCAS 6
6 Noutro sábado, ele entrou na sinagoga e começou a ensinar; estava ali um homem cuja mão direita era atrofiada.


 "Três pessoas doentes são curadas num sábado":


Os Evangelhos contêm misturas perigosas. Quando, numa mesma história, encontramos Jesus, o sábado e os fariseus (ou os mestres da Lei), sabemos com certeza que haverá um conflito. 

É evidente que as Boas Novas anunciam e concretizam um novo vinho, que exige um novo odre/recipiente para transportá-lo. A compreensão de Jesus para a Lei vai além das rigorosas rotinas da antiga tradição. É preciso relembrar o longo trecho do Evangelho de Mateus (capítulos 5, 6 e 7), no qual Jesus interpreta os mandamentos básicos da Lei e joga luz sobre seu significado mais profundo – com fidelidade total ao espírito daqueles ensinamentos.

Nas três passagens incluídas na reflexão de hoje, o conflito surge quando Jesus questiona a interpretação legalista dos fariseus para o sábado, “operando” um milagre para libertar três pessoas da escravidão da doença. Nessas três ocasiões, os fariseus têm a mesma reação: ficam “enfurecidos”, “indignados”, acusam Jesus de desrespeitar a Lei do Sábado. 

É claro que ele poderia ter curado os doentes em outro dia da semana (Lc 13:14). Mas essa “indignação” desmascara uma questão fundamental: a hipocrisia oculta dos que criticam as ações salvadoras de Jesus. De acordo com essa interpretação da Lei, Jesus desrespeitou a observância ao sábado quando “desamarrou” da doença e “endireitou” uma mulher aleijada – uma “filha de Abraão” sujeitada ao domínio de Satanás. 

É curioso que esses críticos não enxerguem desrespeito ao sábado na ação de “desamarrar” seus bois do estábulo, ou de tirar um filho ou um boi de dentro de um poço, se eles ali caíssem. (Vale notar que Lucas usa o mesmo verbo, “desamarrar”, para a libertação da mulher aleijada e do boi). As três curas mostram ainda outra dimensão da discussão com os que supostamente sabem, entendem e interpretam a Lei a ser observada pelos demais. Jesus pergunta: “O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar a vida ou destruí-la?” (6:9). 

A resposta traça uma linha clara entre duas concepções da Lei: uma visão negativa, que sublinha tabus e proibições e parece ter como único escopo a criação de barreiras e muros; e um olhar positivo diante da possibilidade de criar um contexto efetivo de justiça e misericórdia. 

Devemos lembrar da única “lei” que Jesus oferece aos discípulos durante a Última Ceia: “Um novo mandamento lhes dou: amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros” (João 13:34).

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Jesus (O Pão da Vida)...

LUCAS 21
1 Jesus estava no pátio do Templo, olhando o que estava acontecendo, e viu os ricos pondo dinheiro na caixa das ofertas.
2 Viu também uma viúva pobre, que pôs ali duas moedinhas de pouco valor.
3 Então ele disse: – Eu afirmo a vocês que esta viúva pobre deu mais do que todos.
4 Porque os outros deram do que estava sobrando. Porém ela, que é tão pobre, deu tudo o que tinha para viver.

 "Duas viúvas":


Duas viúvas. Duas viúvas pobres. Em ambos os casos, Jesus volta sua atenção para mulheres cujos nomes nem mesmo sabemos. Além do estado civil, elas dividem a condição de pobreza. Para a viúva de Naim, a morte do filho representa a perda de recursos para viver uma vida digna. 

Sabemos que as mulheres ficavam em condições econômicas e sociais difíceis depois da morte do marido. Mesmo quando havia uma herança, ela passava a depender da família do marido – e ainda por cima poderia ser vítima da ganância dos mestres da Lei, que costumavam agir como conselheiros jurídicos e por vezes tiravam vantagem da situação (Lc 20:47). 

Quanto à nossa viúva, trata-se de um caso particular no Evangelho. Em geral, quando Jesus opera um milagre, há um grande destaque para o fator da “fé” por parte dos personagens. 

Estamos habituados a ver a frase: “sua fé o salvou/o curou... lhe fez bem”. Mas esta viúva não pede um milagre, e tampouco implora ajuda ou consolo. Não é a primeira vez que o evangelista descreve uma reação espontânea de Jesus, “movido pela compaixão” ou “cheio de piedade” – para em seguida mostrá-lo dando o primeiro passo para aliviar o sofrimento, concretizando um sinal da atividade salvadora de Deus. O Reino chegou: os doentes são curados, os mortos retornam à vida, os que choram são consolados (veja a passagem seguinte: Lc 7:18-23).


Já a outra viúva representa a atitude fundamental de confiança dos “pobres de Javé”, aqueles que têm no Senhor sua única esperança, aqueles nos quais são cumpridas as palavras de Jesus nas Bem Aventuranças: “Bem-aventurados vocês, os pobres, pois a vocês pertence o Reino de Deus” (Lc 6:20). Ou então, de forma mais precisa – e mesmo que elas não exprimam os próprios sentimentos –, as palavras de Jesus são uma descrição exata de sua atitude: “Não se preocupem com isso... o Pai sabe que vocês precisam delas [dessas coisas]” (Lucas 12:29-30). (Se você ler toda a seção Lc 12:22-34, vai compreender melhor a posição de Jesus em relação à riqueza e ao dinheiro de uma forma mais modesta). 

Sendo assim, as duas viúvas podem nos ajudar a refletir e pensar até que ponto confiamos na misericórdia de Jesus; de que maneira enfrentamos momentos e situações de perda; como nos sentimos inseguros ao encarar a morte de um ente querido (ou mesmo nossa própria morte); a tensão causada pelos tempos de turbulência econômica em que vivemos. 

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje”: talvez esta seja uma boa resposta para esse tipo de situação, e para outras semelhantes.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Jesus (Perdoa)...

LUCAS 7
36 Um fariseu convidou Jesus para jantar. Jesus foi até a casa dele e sentou-se para comer.
37 Naquela cidade morava uma mulher de má fama. Ela soube que Jesus estava jantando na casa do fariseu. Então pegou um frasco feito de alabastro, cheio de perfume,
38 e ficou aos pés de Jesus, por trás. Ela chorava e as suas lágrimas molhavam os pés dele. Então ela os enxugou com os seus próprios cabelos. Ela beijava os pés de Jesus e derramava o perfume neles.

"Uma pecadora é perdoada e um fariseu justo é repreendido":

As duas passagens desta reflexão resumem os temas centrais e recorrentes no Evangelho de Lucas. O elemento fundamental, mencionado em ambos os textos, é uma refeição ao redor de uma mesa comum. 

Ao longo da vida de Jesus, muitos eventos fundamentais ocorreram ao redor de uma mesa; o mais importante, é claro, foi a Última Ceia com os discípulos. Ele divide a mesa com os amigos Marta, Maria e Lázaro. Ele não se recusa a comer com pecadores e cobradores de impostos – motivo pelo qual alguns o chamam de “comilão e beberrão” (Lc 7:34)

Aceita também o convite dos fariseus, e senta-se (ou reclina-se) à mesa com eles, conforme ocorre neste texto e em outras ocasiões (Lc 11:37-41; 14:1-6). O fato é que Jesus veio chamar o rebanho perdido de Israel, não importa sua condição espiritual ou social. 

A história da mulher que ungiu os pés de Jesus é contada pelos quatro evangelistas. Lucas, porém, é o único que sublinha sua condição de pecadora. Curiosamente, os quatro relatos contêm o elemento da indignação, mas os outros três explicam que o escândalo foi provocado pelo desperdício de um perfume muito caro, que poderia ter sido vendido para ajudar os pobres. 

A história de Lucas segue um rumo diferente. O ponto de partida é cristalino: a atitude tomada pela mulher rompe todas as regras de comportamento social. Só uma escrava lavaria ou ungiria os pés de outra pessoa. A ação da mulher, de ungir os pés de Jesus, é uma demonstração de submissão total. 

Além disso, soltar os cabelos não era gesto que uma mulher decente faria em público. O fato de Jesus consentir em ser ungido por uma pecadora, tornando-se ele mesmo impuro, implica sua incapacidade de identificar a condição dos que vêm a ele – e, portanto, a impossibilidade de ser um verdadeiro profeta. 

Nos quatro relatos, Jesus reage defendendo a mulher, mas só neste o perdão e o amor são destacados com tamanha ênfase. O fariseu, que julga ser um homem justo, não observa as regras mais básicas de hospitalidade e cortesia. Mas a mulher, ciente de sua condição pecadora – e sentindo ter sido libertada do fardo de seus pecados –, demonstra seu amor sem se prender a convenções sociais. 

As palavras de perdão de Jesus simplesmente ratificam o que ela experimentou. Ela não é perdoada porque amou (este seria o caminho normal e humano), mas é um exemplo da realidade do amor de Deus para conosco. “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como expiação pelos nossos pecados” (1 João 4:10).

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Jesus (Cura)...

LUCAS 5
18 Alguns homens trouxeram um paralítico deitado numa cama e estavam querendo entrar na casa e colocá-lo diante de Jesus.


"Um paralítico é libertado da doença e do pecado":


Para alguns, tanto no passado como agora, Jesus foi um mestre moral; para outros, foi um profeta, um sacerdote das ruas, um fazedor de milagres (Lc 9:18-20). Entretanto, para nós – cristãos –, o cerne da fé em Jesus reside no fato de que ele era inteiramente homem e inteiramente Deus

Algo simples como essa afirmação, que levou anos para ser definida, resume não apenas sua essência, como é também fundamental para entender sua atuação na vida mortal. Jesus se aproximou dos seres humanos em todas as suas dimensões. Curou os doentes e os reconciliou com Deus; trouxe consigo a cura e o perdão. Isso pode ser visto no texto sobre o qual estamos refletindo hoje. 

Na presença de um grupo que se opunha a Ele (ou, mais precisamente, um grupo de inimigos), Jesus realiza uma ação que estilhaça suas convicções internas. “Como ele ousa dizer que os pecados do paralítico foram perdoados? Quem esse pregador blasfemo pensa que é? Deixe que ele faça apenas as coisas ‘fáceis’, milagres e curas astutas”. De fato, essas ações impressionantes poderiam ser compreendidas como um tipo de ilusão. 

Mas declarar que os pecados de um homem foram perdoados... Isso é algo que apenas Deus pode fazer. 


Este texto, porém, tem ainda outra característica: a fé daqueles que vão a Jesus. “A fé salvou vocês”. Essa frase é dita mais de uma vez. Em algumas ocasiões, trata-se da fé da pessoa salva por Jesus; em outras, da fé dos que intercedem pelo próximo – a exemplo dos homens que trouxeram o paralítico à presença de Jesus; podemos pensar também na fé de Jairo (Lc 8:41-42); e até na do centurião de Cafarnaum (Lc 7:1-10). 

Temos a tendência de limitar a fé ao fato de crer em “alguma coisa” ou em “alguém”

Entretanto, os Evangelhos mostram que a fé é uma atitude de confiança, um esforço ativo. 

Neste texto, os homens têm de superar condições difíceis para levar o paralítico a Jesus

A mulher que sofre de hemorragia tem de se espremer em meio à multidão para tocar seu manto (Lc 8:43-48). A despeito das notícias fatais sobre a saúde da filha, Jairo supera seu pesar e segue Jesus (Lc 8:49-50). 

Embora as pessoas tentem silenciá-lo, o mendigo cego grita cada vez mais alto para ser ouvido por Jesus e curado de sua cegueira (Lc 18:35-43).

Jesus é, a um só tempo, homem e Deus; ele cura nosso corpo e nossa alma. A fé é um conjunto de convicções, mas também uma forma de encarar a vida.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Jesus (A Família)...

LUCAS 8
19 A mãe e os irmãos de Jesus vieram até o lugar onde ele estava, mas, por causa da multidão, não conseguiam chegar perto dele.
20 Então alguém disse a Jesus: – A sua mãe e os seus irmãos estão lá fora e querem falar com o senhor.
21 Mas Jesus disse a todos: – Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a mensagem de Deus e a praticam.

 "Somos chamados para ser a família de Jesus":

O objetivo desta reflexão (repleta de citações) é preparar você para ver como Jesus desafia nossos sistemas mentais, nossos preconceitos e os pressupostos que damos como certos e aceitamos como verdades sólidas e inabaláveis. 

Jesus apresenta a face de um Deus que age como pai, que compreende e aceita nossa condição frágil e pecadora – e que perdoa. Jesus nos convida a segui-lo para aprender a enxergar o mundo com outros olhos.

Todos nós temos a tendência a erguer barreiras e muros para nos defender dos outros. O primeiro muro é o dos laços e limites familiares. Jesus começa dizendo que, ao aceitar a vontade de Deus, tornamo-nos integrantes da família que ele está prestes a criar (Lc 8:19-21 e Lc 11:27). 

Não é preciso um rótulo ou uma carteira de associado para ser um de seus seguidores; basta por em prática o que ele ensina: “Por que vocês me chamam ‘Senhor, Senhor’ e não fazem o que eu digo?” (Lc 6:46). Os primeiros a reconhecer sua presença, no momento de seu nascimento, foram os pastores de Belém, um grupo de excluídos (Lc 2:8-20). Mesmo na hora de Sua morte, Ele mostra misericórdia para com um dos criminosos que foram crucificados com Ele (Lc 23:39-44). 

Jesus não veio conclamar os que têm importância na sociedade, mas aceita em seu lar os que não têm reputação: as crianças, pois “aquele que dentre vocês for o menor, este será o maior” (Lc 9:46-48). Ele não evita os que são considerados impuros aos olhos da sociedade – os leprosos, que ele toca e cura (Lc 5:12-16; 17:11-18). Faz refeições junto aos pecadores, como os publicanos/cobradores de impostos (Lc 19:1-10), e permite que uma pecadora lave e unja Seus pés (Lc 7:36-50). 

Em uma parábola, um Samaritano – membro de um povo herege – é usado como exemplo de misericórdia (Lc 10:29-37). Como sinais da compaixão de Deus, ele cita dois milagres realizados por Eliseu em nome dos pagãos, o da viúva de Sarepta e o de Naamã (Lc 4:16-30). 

Resumindo: é possível sintetizar o ministério de Jesus em duas frases: “O Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19:10) e “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar ao arrependimento os justos, e sim os pecadores” (Lc 5:31-32). É isso que encontraremos desta reflexão em diante.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Jesus (A Oração)...

LUCAS 11
1 Um dia Jesus estava orando num certo lugar. Quando acabou de orar, um dos seus discípulos pediu: – Senhor, nos ensine a orar, como João ensinou os discípulos dele.
2 Jesus respondeu: – Quando vocês orarem, digam: “Pai, que todos reconheçam que o teu nome é santo. Venha o teu Reino.
3 Dá-nos cada dia o alimento que precisamos.
4 Perdoa os nossos pecados, pois nós também perdoamos todos os que nos ofendem. E não deixes que sejamos tentados.”


 "O Pai Nosso":

À medida que avançamos na leitura do Evangelho de Lucas, descobrimos novas características que definem sua visão pessoal de Jesus, bem como o caráter e o estilo espirituais do nosso Senhor

Mais do que os outros três evangelistas, Lucas é aquele que ressalta a importância dada por Jesus à oração. Ele mostra Jesus orando nos momentos mais importantes de sua vida: no batismo (Lc 3:21-22); antes de escolher os Doze (Lc 6:12); antes de perguntar aos discípulos sobre o povo e pedir sua opinião sobre ele (Lc 9:18); antes da Transfiguração (Lc 9:28-29); neste nosso texto; no Monte das Oliveiras, antes de ser preso e dar início à sua paixão (Lc 22:39-46). Lucas, porém, também mostra Jesus insistindo na importância da necessidade de orar. Um bom exemplo está nos versículos que seguem a oração de hoje , faça esta leitura (Lc 11:1-13).


Se compararmos a versão de Lucas para o “Pai Nosso” com a de Mateus (6:9-13), encontraremos alguns detalhes que refletem dois contextos litúrgicos diferentes, e duas comunidades vivendo em mundos diversos. O ponto de partida comum é a forma com que nos dirigimos a Deus. O uso de “nosso”, e não “meu”, para se referir ao Pai, revela o contexto.

Não se trata de uma prática de devoção privada, e sim de uma oração usada por uma comunidade de fiéis. Quanto à palavra propriamente dita, Pai (e talvez “Papai” tivesse sido uma tradução mais precisa para a palavra original usada por Jesus em aramaico) reflete a confiança de um filho ou filha que fala com o pai – conceito desenvolvido por Jesus em suas pregações. 

As diferentes versões sobre o pão de que necessitamos (hoje? de cada dia? amanhã?) dão margem a várias interpretações, e poderiam também indicar diferentes situações econômicas. De todo modo, a ênfase deve estar na necessidade de confiar em Deus em qualquer circunstância. Vale lembrar que, embora os que passem fome sejam abençoados (felizes), isso ocorre apenas porque Deus irá satisfazer suas necessidades (Lc 6:21). 

No contexto de pobreza de Lucas (sabemos que ele ressalta essa realidade com frequência), talvez o perdão de Deus aos nossos pecados dependa do nosso perdão não aos pecados (ofensas espirituais), mas sim às dívidas (materiais, monetárias, reais) dos outros para conosco

No final das contas, temos de nos libertar da tentação de limitar nossa relação com Deus e com nossos irmãos a uma dimensão espiritual desprovida de compromisso com nosso mundo.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Jesus (As Boas Novas)...

LUCAS 6
20 Jesus olhou para os seus discípulos e disse: – Felizes são vocês, os pobres, pois o Reino de Deus é de vocês.
21 – Felizes são vocês que agora têm fome, pois vão ter fartura. – Felizes são vocês que agora choram, pois vão rir.


 "O sermão na planície": 

Os versículos que precedem esta passagem são um breve resumo das atividades de Jesus depois que ele abandona o deserto, após sua tentação. 

Nesse período, Jesus cumpriu seu ministério, seguindo as orientações que havia anunciado na sinagoga de Nazaré. “...Para pregar boas novas aos pobres” e a “recuperação da vista dos cegos”: essas duas frases são símbolos de sua missão maior. Toda a seção do Evangelho anterior a este momento foi uma demonstração da missão libertadora do Servo, anunciada na leitura de Isaías. Ele curou os doentes, libertou os que estavam possuídos por maus espíritos e se opôs à compreensão negativa e opressora da Lei, contida na interpretação dos fariseus, dos mestres e escribas. 

Este é o momento apropriado para saber a quem ele anuncia a chegada do reino de Deus

E só agora começamos a descobrir que esse reino requer uma mudança radical de mentalidade para seus seguidores e para os que desejam fazer parte dele no futuro. 

Lucas já havia oferecido um breve olhar sobre as consequências do nascimento do Messias: “Derrubou governantes dos seus tronos, mas exaltou os humildes. Encheu de coisas boas os famintos, mas despediu de mãos vazias os ricos” (Lc 1:52-53). 

Na tradição de Israel, os “abençoados”, considerados “felizes”, eram aqueles cuja retidão era recompensada com riquezas, terras, rebanhos, boa saúde e boa reputação. Por isso Jó não pode compreender o que aconteceu a ele, um homem justo. Agora, surge Jesus com uma mensagem que poucos são capazes de entender. Os preferidos no reino, aqueles aos quais Ele é oferecido, são os pobres (ou, para ser preciso, os “destituídos”), os que sofrem com a fome, os fracos, rejeitados ou excluídos

O oposto ocorre com aqueles cuja abundância e autossatisfação os impede de receber os presentes de Deus. Na verdade, os ricos não precisam de dinheiro, os justos não precisam de perdão, os saudáveis não precisam de um médico.

O que Jesus quer dizer com sua mensagem? Será que pretende apenas subverter antigos valores? Em certa medida – já que entrar no reino implica fazer coisas que as pessoas comuns e até corretas não compreendem –, estaria ele falando sobre amar os próprios inimigos?! Isso mesmo! Embora não pareça lógico, é assim que Deus trata os pecadores. 

No final das contas, a piedade é essencial para entender um Deus misericordioso, que espera misericórdia também de seus filhos. Este é o significado mais profundo do anúncio das Boas Novas do reino de Deus

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Jesus (O Professor)...

LUCAS 4
16 Jesus foi para a cidade de Nazaré, onde havia crescido. No sábado, conforme o seu costume, foi até a sinagoga. Ali ele se levantou para ler as Escrituras Sagradas,

"Jesus na sinagoga de Nazaré":

Esta longa passagem é, sem dúvida, uma das mais desconcertantes do Evangelho de Lucas. 

Nos versículos anteriores, o evangelista resumiu em poucas palavras as primeiras atividades de Jesus: “...e por toda aquela região se espalhou a sua fama. Ensinava nas sinagogas, e todos o elogiavam” (Lc 4:14-15)

Jesus, portanto, já era conhecido, e de fato as pessoas na sinagoga “tinham os olhos fitos nele”. Filho de uma pequena cidade praticamente desconhecida, ele havia ganhado fama e estava ali, pronto para exibir seus conhecimentos sobre as Escrituras. Suas primeiras palavras são uma declaração solene de sua condição. A salvação anunciada pelo profeta está ocorrendo naquele momento; não se tratava de uma promessa a ser cumprida num futuro vago e distante.

A mensagem de Jesus é, essencialmente, uma mensagem de libertação. De acordo com as palavras do profeta, ele foi enviado para libertar da doença, do confinamento ou de qualquer tipo de servidão aqueles que vivem em circunstâncias opressoras. Essas palavras de graça causam espanto nos ouvintes. Mas provocam também um desejo de ver cumpridas, entre eles, essas promessas de libertação. Eles sabiam que Jesus era filho de José. Queriam que ele agisse e mostrasse seu poder em Nazaré, assim como havia feito em Cafarnaum. 

É difícil não ficar perturbado diante da estranha reação do público presente. Em vez de “falar bem” e admirar-se com “as palavras de graça que saíam de seus lábios”, as pessoas adotaram uma reação de fúria e ira, a ponto de tentar “atirá-lo precipício abaixo”, do alto da colina onde se situava Nazaré. O que aconteceu para que eles mudassem tão repentinamente? Talvez eles tenham encontrado, nas palavras de Jesus sobre Naamã, o Sírio (2 Reis 5:1-14), e sobre a viúva de Sarepta (1 Reis 17:7-16), algo que nem as pessoas, nem as autoridades religiosas eram capazes de compreender.

O Reino de Deus não era propriedade exclusiva de Israel, e a misericórdia e a salvação divinas chegam para toda a humanidade. Por isso Jesus é considerado um herege: seu contato com pecadores, excluídos, impuros... e gentios! 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Jesus (O Batismo)...

LUCAS 3
21 Depois do batismo de todo aquele povo, Jesus também foi batizado. E, quando Jesus estava orando, o céu se abriu,
22 e o Espírito Santo desceu na forma de uma pomba sobre ele. E do céu veio uma voz, que disse: – Tu és o meu Filho querido e me dás muita alegria.

 "O batismo de Jesus e sua tentação":

Quando lemos o Evangelho e os Atos de Lucas, descobrimos uma característica peculiar: a importância conferida por ele ao Espírito Santo. É curioso observar que a expressão “Espírito Santo” aparece 54 vezes nos dois livros de Lucas, enquanto no resto do Novo Testamento ela surge em apenas 25 ocasiões. 

Nos três eventos sobre os quais refletiremos hoje, encontraremos o Espírito Santo como a força que preenche Jesus e o impulsiona a agir nos momentos fundamentais de sua vida. 

Com efeito, ele foi concebido pelo Espírito Santo (Lc 1:35), e seu primeiro ministério público e solene em Nazaré começa com o anúncio: “O Espírito do Senhor está sobre mim...” (Lc 4:18).


No caso do batismo, é importante ressaltar como Jesus compartilha nossa condição humana, inclusive em sua atitude de juntar-se ao grupo de pecadores que se sujeita aos rituais de penitência e purificação de João. Nesse momento, a aparição do Espírito Santo em forma corpórea e a voz misteriosa do céu proclamam Jesus como o “Filho amado” [de Deus], e estabelecem o papel que ele irá desempenhar em suas atividades futuras.

 Essa expressão será crucial para compreender suas tentações.

Mais uma vez, é o Espírito quem conduz Jesus para o deserto. Ele o faz não apenas para um período de jejum e oração, de modo a preparar-se para seu ministério, mas também para estar sujeito às tentações – ou seja, vivenciar os caminhos falsos e sedutores pelos quais ele poderá cumprir sua missão. A chave, conforme eu já disse, está na frase “Se és o Filho de Deus...” Essas palavras causarão um impacto terrível nos momentos mais extremos da vida de Jesus, inclusive na crucificação: “salve-se a si mesmo” (Lc 23:35-37). 

O demônio é mais sutil, e oferece possibilidades tentadoras por ser o Messias: usar o poder para transformar as pedras em pão, para benefício próprio; recorrer ao poder político ou econômico (no final das contas, o poder de Satanás) para instituir o Reino de Deus; ou reduzir sua missão a uma demonstração de prestígio e exaltação pessoais. 

Nesses três casos, Lucas prevê as mesmas tentações que a comunidade cristã enfrentará ao longo da história. E, nesses três casos, a única arma usada por Jesus é a Palavra de Deus.

Finalmente, é o Espírito que conduz Jesus a iniciar seu ministério e anunciar que o Reino de Deus chegou ao seu povo.


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Jesus ( A Missão)...

LUCAS 2
41 Todos os anos os pais de Jesus iam a Jerusalém para a Festa da Páscoa.
42 Quando Jesus tinha doze anos, eles foram à Festa, conforme o seu costume.
43 Depois que a Festa acabou, eles começaram a viagem de volta para casa. Mas Jesus tinha ficado em Jerusalém, e os seus pais não sabiam disso.

"A apresentação no Templo":

Este é o último acontecimento relacionado ao nascimento de Jesus. Depois disso, José, Maria e o menino irão se estabelecer em Nazaré. Só voltaremos a ter notícias deles quando Jesus estiver com 12 anos e a família voltar ao templo para a festa da Páscoa. Na história de hoje, Lucas ressalta duas ideias fundamentais presentes em todo o seu Evangelho.


O livro tem gregos e romanos em mente, e nenhum desses povos nutria grande simpatia pelos judeus. Além disso, Jesus não é apresentado como um novo Moisés, o portador da nova Lei. Mesmo assim, Lucas insiste nas raízes, na história e na condição de Jesus como judeu. Logo após a tradicional circuncisão, e em apenas três versículos, ele nos conta que todos os rituais eram realizados “de acordo com a Lei”. E a Lei será mencionada duas outras vezes nesta passagem. Ele também nos informa que “todos os anos seus pais [de Jesus] iam a Jerusalém para a festa de Páscoa” (Lc 2:41). Mais adiante, Lucas inclui a genealogia de Jesus (Lc 3:23-38), conforme também fez Mateus.

A segunda ideia é a importância dos humildes, dos que “não são considerados”

Conforme já vimos, no momento do nascimento de Jesus essas pessoas eram os pastores, personagens marginais convidados pelos anjos a ir ver o recém-nascido “Messias, o Senhor” (Lc 2:8-20). Em sua primeira pregação na sinagoga de Nazaré, Jesus anuncia sua missão: ele foi enviado “para pregar boas novas aos pobres” (Lc 4:18). É preciso lembrar que “os pobres” não são apenas os necessitados, e sim aqueles que reconhecem sua condição humilde diante de Deus

Simeão não é um sacerdote, e tampouco somos informados de que ele desempenhava um papel especial no Templo. Ele estava lá, tocado pelo Espírito, na esperança de ver o Messias de Deus. O que vemos, na verdade, é o filho de um casal pobre. Mesmo assim, ele sente que a promessa foi cumprida e anuncia sua gratidão por ter visto a salvação de Deus para todos, a “luz para revelação aos gentios”

Em suas palavras, escutamos o eco do prefácio de João: a Palavra era “a luz dos homens” que havia chegado ao seu povo. Quanto a Ana, ela também não tem papel oficial no Templo – é, por assim dizer, “insignificante”. Mas Ana também agradece a Deus por algo que talvez ela não compreenda totalmente, pelas boas novas para os que “esperavam a redenção de Jerusalém”.